Semana dos Povos Indígenas, Jogos e Antropologia Digital: Huni Kuin

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Vivemos em uma era digital, na qual os jogos digitais constituem uma parte cada vez maior da nossa cultura. De fato, tem se afirmado que o século XXI será definido pelos jogos.

“Os jogos são máquinas de entradas e saídas que são habitadas, manipuladas e exploradas” (Zimmerman 2014, 20)

Eles têm sido o foco de estudos antropológicos, mas cada vez mais jogos de videogames são desenvolvidos tendo a antropologia e a arqueologia como temática principal. Um dos benefícios citados é a capacidade que os jogos possuem de envolver uma maior audiência na sua discussão, desenvolvimento e compreensão. No Brasil, os videogames não são ainda utilizados de forma mais extensiva como em outras partes do mundo, mas existem algumas exceções. Uma delas é Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia, que será lançado no mesmo período em que ocorre a Semana Indígena. O jogo apresenta uma ótima oportunidade para discutir a interseção de eventos culturais, o compromisso e envolvimento através dos jogos de videogame.

Em Abril, entre uma série de datas comemorativas, o Brasil realiza a Semana Indígena. Se você ainda não ouviu falar sobre, trata-se de uma semana votada para a discussão, conscientização dos direitos e políticas dos povos indígenas. Durante essa semana, milhares de escolas no país planejam e realizam atividades que culminam no chamado Dia do Índio no dia 19 de Abril. Essas atividades estão em grande parte relacionadas a temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena, que fazem parte do plano de ensino e currículo nacional, apoiada pela lei (11.645/08). Para alguns alunos, essa constituí a primeira experiência e a primeira discussão envolvendo sociedades indígenas.

Apesar de ser uma iniciativa válida, em processo de desenvolvimento, a realização dessas atividades, por vezes, constituí também uma ocasião para a perpetuação de equívocos e replicação de estereótipos. Por exemplo, o que algumas pessoas compreendem e ou percebem como “um índio de verdade”. Deixando assim de explorar assuntos relevantes de forma crítica e ou promover um maior engajamento com a audiência. Aqui uma oportunidade fantástica, para se discutir e compreender melhor a cosmologia e as crenças dos povos indígenas assim como sua importância, é perdida.

Seria ótimo então poder utilizar um método interativo que apoiasse uma melhor compreensão dessas sociedades. Um método que promovesse a identificação, empatia e que melhorasse as relações com as sociedades brasileiras indígenas e a sua cultura. Isso é particularmente importante dada a discriminação histórica e atual contra as comunidades e seus integrantes.

Mas, e se os professores pudessem proporcionar uma atividade envolvente e divertida que reconhecesse a importância da agência de indivíduos – na qual o aluno desempenha um papel ativo- no intercâmbio dos conhecimentos e memórias dos povos indígenas? Jogos de videogame oferecem uma possibilidade de proporcionarmos uma experiência imersiva e interativa em um formato digital e atraente. Então, por que não organizar uma sessão de jogos para ajudar? Os jogos podem ter uma variedade de benefícios e podem contribuir para uma discussão mais crítica e menos simplista sobre a cosmologia indígena, modos de vida e arte. E quem não gosta de um bom jogo? Se você é um educador ou apenas uma pessoa interessada procurando por ideias de atividades para a Semana Indígena, então Huni Kuin é uma ótima escolha.

HUNI KUIN – UM PROJETO DE JOGO COLABORATIVO

Huni Kuin: Yube Baitana ou Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia, é um jogo de RPG 2D para PC e Mac que resulta de uma colaboração notável entre os grupos Kaxinawá do Rio Jordão, Acre, antropólogos e programadores. O antropólogo Guilherme Meneses e seus colegas propuseram o jogo como uma forma de comunicar canções, mitos e o ponto de vista dos Kaxinawá, criando assim um dispositivo para compartilhar essas histórias e ao mesmo tempo trazer também benefícios para as comunidades.

Durante um sonho, a jiboia Yube concebe um casal de gêmeo: o menino é um caçador, e a menina uma artesã, ambos herdam os poderes especiais da jiboia. Os dois personagens viajam através de cinco histórias que são baseadas em elementos do Shenipabu Miyui – histórias dos antepassados – do grupo Kaxinawá: Yube Nawa Aĩbu, Siriani, Shumani, Kuĩ Dume Teneni e Huã Karu Yuxibu. Durante o jogo, eles ganham as habilidades de seus antepassados, animais, plantas e espíritos. Se comunicam com seres da floresta visíveis e invisíveis – yuxibu. Os irmãos passam então por vários desafios para se tornarem um curador – Mukaya – e uma mestra em artes e desenhos – Kene. Uma vez que que os desafios são ultrapassados eles se tornam um Huni Kuin,- seres humanos verdadeiros na língua Hatxã Kuin.

Huni Kuin foi desenvolvido através de uma série de workshops com cerca de 45 Kaxinawá de 32 aldeias no estado do Acre. Gravações de músicas, histórias, desenhos do ambiente, animais, plantas e da cultura material incluindo roupas e pinturas corporais, foram utilizados como materiais de suporte para o desenvolvimento do jogo. Essa escolha e colaboração significa que a representação dos Kaxinawá é bastante diferente de algumas imagens de jogo de videogame, onde, por vezes, os indígenas são estereotipados. Por exemplo, a aldeia é ilustrada com base em como as terras indígenas são hoje, e não em uma versão idealizada.

As histórias não são representações precisas dos mitos Kaxinawá, mas sim combinações de diferentes aspectos dessas histórias e mitos. A trilha sonora também combina diferentes elementos da música tradicional. Desta forma, os elementos cosmológicos estão representados, e as ideias são expressadas e explicadas, mas em novas formas ou formas remixadas criadas com os Kaxinawá.

O projeto é um grande exemplo de colaboração, retornando mais do que um jogo com imagens e gravações dos Kaxinawá. A comunidade aprendeu a filmar e gravar em workshops, e obteve acesso a recursos como painéis solares e computadores.

O POTENCIAL DOS JOGOS ANTROPÓLOGICOS

Os jogos apresentam um grande potencial para os educadores e alunos, não apenas durante a Semana Indígena, e não apenas nas escolas, mas também para ser discutido e jogado nas universidades. Professores de biologia e zooarqueologia podem fazer uso do jogo para explorar assuntos de biogeografia e relações humano-ambiente na América do Sul. Outros podem usá-lo para elaborar aulas sobre mitologia ameríndia, ritual, e ou para explicar o perspectivismo ameríndio.

No Brasil, as humanidades digitais e o desenvolvimento de jogos de videogame por antropólogos e arqueólogos ainda é muito pouco explorado. Séries semelhante a jogos como Huni Kuin foram desenvolvidas para diferentes grupos indígenas e apresentam efeitos visuais impressionantes.

Um exemplo vem do Alasca, onde Never Alone (Kisima Inŋitchuŋa) foi lançado em 2014 pelo Conselho Tribal Cook Inlet em associação com a E-Line Media. O jogo parece ótimo visualmente e ganhou pelo menos seis grandes prêmios, além de ser baseado em histórias Iñupiaq. Outros esforços incluem Mulaka, desenvolvido em colaboração com os Raramuri da Sierra Madre, no México.

Esses são bons exemplos de trabalhos colaborativos entre pesquisadores, comunidades locais e programadores. Em outras áreas como arqueologia, discussões atuais ressaltam a falta de engajamento entre acadêmicos e programadores em projetos que envolvem e discutem o passado.

No entanto, o envolvimento e os resultados subsequentes dependem do contexto do projeto. No caso de Huni Kuin e outros mencionados acima, esses foram planejados por pesquisadores e grupos locais. Em alguns exemplos relacionados com a arqueologia, os projetos não são necessariamente voltados a uma investigação acadêmica. Outro contraste é o conceito de “propriedade” do passado. Os Kaxinawá possuem uma voz hoje, e representam a sua cultura no presente. Para os jogos que lidam com sociedades de milhares de anos atrás, a “propriedade” e ou pertencimento pode não ser tão claro – nesses casos quem teria a resposta certa? Sou tendenciosa a visão apresentada pela arqueologia, mas no final, ambas são interpretações.

CONCLUSÃO

Huni Kuin é uma ótima maneira de envolver as pessoas e alunos e ajudar no processo de reflexão sobre outras culturas, além de ser o resultado de uma importante colaboração. Em última análise, este tipo de trabalho pode auxiliar a quebrar o preconceito e diminuir a violência contra indígenas.

O futuro do nosso património reside na colaboração e intercâmbio, assim como na identificação e empatia gerada por essa troca. Como pesquisadores e educadores nosso papel é também apoiar e facilitar esse entendimento para os alunos e colegas, o mais cedo possível, para que em um futuro próximo todos possamos valorizar e respeitar a cultura de todos.

Durante essa Semana Indígena reflita sobre a sua prática pedagógica, aceite o desafio, deixe os desenhos, as maquetes e as fantasias simplistas de lado, proponha uma atividade mais crítica e esclarecedora, conheça e jogue Huni Kuin.

O lançamento do jogo esta previsto para essa Sexta-Feira 15 de Abril; é gratuito e estará disponível em Hatxã Kuin, Português, Espanhol e Inglês. Para mais informações consulte o site Huni Kuin.

BIBLIOGRAFIA

Zimmerman, E. 2014. Manifesto for a Ludic Century. Em Walz, S. P. e Deterding, S. (orgs.). The Gameful World: Approaches, Issues, Applications. London: MIT Press, 19-22.

This is the Portuguese version of the article. Access the English version.

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